terça-feira, 1 de abril de 2025

O AMIGO PERGUNTA SOBRE O SUPEREGO DOS MIMADOS

 


O AMIGO PERGUNTA SOBRE O SUPEREGO DOS MIMADOS

“Os mimados desenvolvem um Superego? Como seria isso, se eles nunca são ameaçados de desamparo?”

Francisco Daudt: Primeiramente vamos considerar os tipos de mimo:

1. Mimo do “amor absoluto”: pais que confundem autoridade com autoritarismo, estabelecimento de limites com opressão;

que temem a simples possibilidade de seus filhos os verem como “maus”; que culparam seus pais por todos os seus problemas (e temem que no futuro seus filhos façam o mesmo com eles);

que reprimem as irritações que seus filhos lhes causam, e reagem exageradamente com manifestações “amorosas” a cada vez que se irritam com eles;

que obedecem ao senso comum de ter que dizer “eu te amo” para os filhos várias vezes por dia;

que nunca contrariam seus pedidos.

Como é o Superego gerado, nesses casos? É um cruel Superego terceirizado: seus pais, por submissão e medo dela, a tornaram num pequeno tirano: eles a puseram na posição de Superego deles. Eles a induziram a um vício sadomasoquista de domínio/submissão em que ela é o dominador e eles as vítimas.

Ao mesmo tempo vai se construindo o “Superego bomba-relógio”: a criança vai descobrindo que o mundo é duro (infinitamente mais duro para ela, por contraste com sua casa), vai caindo na real sobre seu despreparo para negociar fora de casa, onde as pessoas não se comportam como seus pais.

A criança se vê incapacitada para qualquer tipo de construção (aquilo que lhes daria autonomia e independência).

O drama frente a qualquer dificuldade é sempre enorme. A possibilidade de ela desenvolver vício em substância “para aliviar esse duro” será enorme: a substância mais comum será a maconha.

2. Mimo do descarte: pais que aceitam qualquer coisa dos filhos para se verem livres deles o mais rápido possível, para que voltem aos seus reais interesses. Não querem ir ao colégio? Tudo bem. Querem passar o dia no celular? Melhor ainda.

Muito comum em filhos de casais separados, que vivem dois regimes de governança, um permissivo e o outro cobrador.

Como o Superego é gerado, nesses casos? O lado cobrador acaba representando o “mundo sério e duro” (a construção vista com horror), o mundo do Superego. O lado permissivo forma sua defesa viciante, o “mundo do dane-se” (o imediatismo que abre para outros vícios de prazer instantâneo - maconha continua como o mais comum - tornando a construção mais difícil ainda).

Ou seja, o Superego do mimado é um monstro poderoso que amedronta e pede (ou impõe) o alívio dos vícios.







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O AMIGO PERGUNTA SOBRE DIAGNÓSTICO DE VÍCIOS

 



O AMIGO PERGUNTA SOBRE DIAGNÓSTICO DE VÍCIOS

“Como eu posso saber se sofro de vícios? O que diferencia um gosto de um vício?”

Francisco Daudt: Aqui vão alguns critérios para diagnóstico dos vícios, de forma genérica, não importa se em substâncias ou comportamentais:

Vícios (genérico)

Sintomas

1. Ação compulsiva e repetitiva de aparente vontade própria, mas que causa dano.

2. Alívio das “durezas da vida”; consolo; ilusão de poder.

3. Longo tempo de duração (às vezes desde a infância / adolescência).

4. Grande aluguel (ocupa muito os pensamentos e o tempo da pessoa).

5. Imediatismo (predomínio da satisfação rápida e inibição/ intolerância às construções/ reflexões).

6. Fissura (desconforto por abstinência).

7. Negação de ver como uma doença ; ilusão de que é fruto de sua “escolha”.


Regras para diagnóstico

1. O item 1 dá 100% de diagnóstico. Os demais só dão a dimensão de gravidade.


Perguntas

1. Existe história familiar de vícios?

2. Como começou? Quais foram as circunstâncias duras da época? Fazia parte do grupo de amparo?

3. O que exatamente o vício consola? Quais as “durezas da vida”?

4. O vício em substâncias se acompanha de vícios comportamentais?

5. Vice-versa?






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O AMIGO PERGUNTA SOBRE A LOUCURA

 



O AMIGO PERGUNTA SOBRE A LOUCURA

“O que acontece com os malucos? Como entender as psicoses?”

Francisco Daudt: As psicoses sugerem um mecanismo de defesa extremo, detonado por um trauma atual que desorganiza totalmente a psique, e a reorganiza de forma bizarra: o delírio (concepção do mundo sem ligação com a realidade) é a explicação encontrada para aquela sobrecarga de sistema que o fez se desmontar. Ele é sempre grandioso (“existe uma organização mundial que me persegue”), o que dá a dimensão da gravidade do trauma.

Outra marca dessa gravidade são as alucinações: experiências dos sentidos (audição e visão, principalmente) sem estímulo externo, somente através dos estímulos de arquivos de memória do psicótico. Assim como nos sonhos, a pessoa vê o que não está lá, e ouve o que não produziu ruído.

Nas alucinações auditivas está a única pista para se fazer uma hipótese de qual área do Superego foi acionada: é de regra que os psicóticos de esquizofrenia paranoide ouçam acusações de homossexualidade, que suas alucinações os chamem de viados.

O que faria supor que tivessem um percentual homoerótico em seus desejos, causando um conflito descomunal.

A conferir (ou a refutar).






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OLHANDO O LUCRO

 


Todos os dias o pai deixava o remédio pronto na cabeceira do filho adormecido, e abria um pouco a janela para a luz entrar. Era seu jeito de ajudar o filho a acordar bem.

Um dia ele se esqueceu. Quando mais tarde eles se encontraram, o filho lhe disse: “Poxa, pai, quando vi que o remédio não estava lá, eu me dei conta do quanto é bacana você me ajudar todos os dias!”

O pai quase chorou de emoção: ele costumava comentar com o filho as coisas legais que vivem…






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LUTO PATOLÓGICO



Sintomas

1. Luto grave (perda pessoal ou profissional - de ligações afetivas, de gente morta ou viva/rompimentos)
2. Luto grave prolongado (mais de seis meses sem diminuir)

3. Sintomas depressivos

4. Pensamentos suicidas

5. Luto com forte sentimento de culpa

6. Vícios de substâncias e sadomasoquista com predomínio masoquista

7. Sintomas obsessivos

8. Alegria causando culpa (falta de direito à alegria)

9. Apego ao sofrimento como forma de punição pela culpa

Regras para diagnóstico

1. Os itens 1 e 2 dão 100% do diagnóstico

2. Os demais itens dão dimensão da gravidade, se somados aos 1 e 2

Perguntas

1. De que tipo de perda se trata? (Profissional, status, gente viva, morta)

2. Qual a dimensão da perda? (Grau de desamparo)

3. Qual a complexidade da perda? De que elementos ela se compõe?

4. Sentimento de culpa envolvido?

5. Que consolos estão sendo usados? (Vícios, masoquismo etc.)

6. Que consolos estão sendo rejeitados? (Obrigação moral de sofrer)

7. No caso de pensamentos suicidas, de que gravidade?







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sábado, 22 de março de 2025

A ECONOMIA DO LUTO

 


“Eu me separei da minha namorada que me enchia o saco, mas ando meio triste, pensando muito nela. O que se passa?”

Francisco Daudt: Existe uma base econômica para qualquer dos nossos atos: todos passam por uma avaliação de custo-benefício e são feitos quando se reúnem motivação, meios e oportunidade. 

Você rompeu movido pelos custos, pois sua balança interna - consciente ou não - de custos-benefícios pendeu para o peso dos custos. Os custos (psíquicos e outros) cessaram, mas… os benefícios também. O luto é sempre pela perda dos benefícios.

Por comparação, o cliente que perdeu sua mãe depois de 15 anos de Alzheimer me disse que não sentiu luto nenhum. Pudera, os benefícios já tinham se perdido ao longo daquele tempo, o luto foi em pequenas prestações, e só ficaram os custos. Ninguém tem luto por custos cessantes.





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CSI E PSICANÁLISE

 


“Você diz que gosta dos CSI (investigação da cena do crime) porque eles são parecidos com a boa psicanálise. Como assim?”

Francisco Daudt: Tanto neles como na psicanálise, tudo começa com um enigma complexo. A investigação, lá e cá, é um trabalho de engenharia reversa com tentação de respostas rápidas a ser evitada. 

O engraçado é que eles têm personagens toscos (o policial careca Rex Linn) que sempre saltam para se agarrar em conclusões (“jump to conclusions”) rasas, enquanto a turma científica reúne fragmentos que sirvam de pistas, e nunca “fecham o caso” enquanto não descobrem bases consistentes para suas hipóteses.

Essas bases vêm de diversas fontes: da balística (minha adorável Emily Procter), da legista (mais querida ainda Khandi Alexander), do laboratório (Eva LaRue), do pessoal da cena (Adam Rodriguez e Jonathan Togo), todos levando seus achados para o analista principal David Caruso, que liga as provas e apresenta suas dúvidas até se dar por satisfeito.

Esse trabalho de levantar hipóteses a partir dos achados, e deixá-las vulneráveis à refutação e ao descarte diante de novas evidências é a cara do método científico de Karl Popper, meu farol-guia da investigação psicanalítica. 

Raciocinar junto tendo a razão iluminista como bússola é o meu barato, no CSI e no consultório.





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